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Artigos de Opinião​

Brincar como base da intervenção terapêutica


Brincar não é apenas uma forma de ocupar o tempo da criança — é uma atividade estruturante do seu desenvolvimento global. Ao longo das últimas décadas, áreas como a psicologia, a terapia ocupacional e a terapia da fala têm vindo a reforçar uma ideia que hoje é consensual: o brincar é uma competência essencial à aprendizagem e um dos principais motores do desenvolvimento cognitivo, social e linguístico.


Desenvolvimento cognitivo: aprender a pensar através do brincar.
Quando uma criança brinca, está ativamente a construir conhecimento. Ao explorar objetos, resolver problemas, criar cenários imaginários ou participar em jogos com regras, desenvolve competências como atenção, memória, raciocínio e flexibilidade cognitiva. O brincar simbólico — o “faz de conta” — permite organizar o pensamento e compreender o mundo de forma progressivamente mais complexa.
Como defendia Jean Piaget, o brincar é uma forma privilegiada de a criança assimilar a realidade e integrar novas experiências nos seus esquemas mentais.


Interação social: o brincar como espaço de relação
O brincar é também um espaço natural de interação. É nele que a criança aprende a partilhar, a negociar, a respeitar regras e a compreender o outro. Em contextos de brincadeira, surgem oportunidades espontâneas para desenvolver competências sociais e emocionais fundamentais.

Linguagem: brincar para comunicar
A linguagem desenvolve-se de forma mais rica e funcional em contextos significativos — e o brincar é, por excelência, um desses contextos. Durante a brincadeira, a criança comunica com intenção, constrói frases, narra, questiona e interage. O brincar simbólico potencia especialmente o desenvolvimento da linguagem expressiva e pragmática.

 

O brincar nas diferentes áreas de intervenção
Nas áreas clínicas, o brincar não é apenas uma estratégia — é uma ferramenta central:


Na psicologia, o brincar permite compreender emoções e promover competências socioemocionais;


Na terapia ocupacional, facilita o desenvolvimento de competências motoras, sensoriais e funcionais;


Na terapia da fala, é o meio privilegiado para estimular a comunicação, a linguagem e a articulação.


Na nossa prática clínica, o brincar assume um papel central e intencional. Cada atividade lúdica é cuidadosamente pensada para responder aos objetivos terapêuticos definidos para cada criança. Não se trata apenas de “brincar por brincar”, mas de utilizar o brincar como um meio estruturado para promover desenvolvimento.

Ao integrar o brincar na intervenção, conseguimos criar um ambiente mais motivador, significativo e ajustado ao perfil da criança, facilitando não só a aquisição de competências, mas também a sua generalização para o dia a dia.


Num contexto em que as exigências escolares surgem cada vez mais cedo, é fundamental reforçar que o brincar não é um obstáculo — é a base da aprendizagem. Crianças que têm oportunidades de brincar desenvolvem melhores competências cognitivas, sociais e linguísticas, fundamentais para o sucesso académico e pessoal.


Conclusão


Brincar é a linguagem natural da infância. É através dele que a criança aprende, se expressa e se relaciona com o mundo. Enquanto profissionais e enquanto sociedade, cabe-nos garantir que o brincar é valorizado, promovido e integrado — não como um momento acessório, mas como um pilar essencial do desenvolvimento infantil.
 

Referências bibliográficas
Jean Piaget (1962). Play, Dreams and Imitation in Childhood.
Lev Vygotsky (1978). Mind in Society.
American Academy of Pediatrics (2018). The Power of Play.
UNICEF (2018). Learning Through Play.
World Health Organization (2019). Guidelines on Physical Activity. 

Maio de 2026 // por Terapeuta Isabel Costa (C - 038162164) e Abril de 2026// por Terapeuta Helena Santos (C-030977185)

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