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A Perturbação do Espetro do Autismo é entendida como uma perturbação do desenvolvimento caracterizada por marcadas alterações nas interações sociais e na comunicação. As crianças com PEA têm também dificuldades em reagir a estímulos sociais, na imitação e a brincar adequadamente (Levy et al, 2006). De facto, uma das características mais marcantes e intrigantes do autismo é, sem dúvida, o uso e desenvolvimento diferente da fala, linguagem e comportamentos comunicativos (Peixoto, 2007). Existe uma grande heterogeneidade nas características de comunicação, fala e linguagem das crianças do PEA, quer nos aspetos verbais, quer nos não verbais. As dificuldades nas características sociais e pragmáticas da linguagem e competências cognitivas relacionadas são as mais salientes (Wetherby et al, 2000). Apesar de em muitos indivíduos com PEA existir linguagem verbal oral, nem sempre esta é funcional e preenche as suas necessidades diárias (Peixoto, 2007). As crianças com PEA não só tem dificuldade em desenvolver linguagem e fala, mas também apresentam dificuldade na compreensão e uso de comportamentos não verbais e em interações comunicativas (Wetherby et al., 2000). As limitações na comunicação têm consequências em todas as situações de vida nomeadamente nos processos de aprendizagem, o que não significa que estas crianças não tenham necessidades e desejos (Von Tetzchner & Martinsen, 2000). A capacidade de comunicar permite o controlo sobre o meio ambiente da pessoa, e cria oportunidades de interação (Nunes, 2001). Face a esta realidade torna-se evidente a urgência de dotar as crianças com Perturbações da Comunicação (PC), de meios alternativos e/ou alternativos de comunicação, falamos então da introdução de CAA (Sapage et al., 2018). A Comunicação aumentativa e alternativa (CAA) refere-se à utilização de sistemas de comunicação não vocais e a estratégias de intervenção implementadas para ensinar a utilização da CAA que é recomendada para indivíduos que tenham capacidades de fala ininteligíveis ou limitadas, ou falta de discurso por completo ou indivíduos com perturbações que afetam o uso funcional da fala. (Sigafoos et al., 2013).
A utilização de CAA pode ser importante para algumas crianças, com o objetivo de facilitar o desenvolvimento da linguagem recetiva e expressiva, bem como da pragmática. Pode incluir fotografias, símbolos pictográficos, gestos sociais, língua gestual e dispositivos com saída de voz (Greenspan & Lewis, 2005). Uma vez que os gestos são menos transientes do que as palavras, alguns autores sugerem que estes exigem menos competências de memória auditiva e compreensão abstrata, e mais fáceis de facilitar do que as vocalizações (Howlin, 2006). No entanto, o uso de signos gestuais como CAA pode não ser a melhor seleção de sistema, uma vez que se sabe que crianças com PEA tem, frequentemente, dificuldades no planeamento e sequenciação motora e em diferentes aspetos da imitação (Howlin, 2006). Existe uma quantidade significativa de estudos que demonstram que as competências visuais estão intactas na criança com autismo, e que os métodos de aprendizagem baseados em estímulos visuais são efetivos no desenvolvimento de competências gerais (Quill, 1997). Alguns estudos referem que os signos gráficos icónicos são os mais fáceis de aprender (Mirenda, 2001). Assim, os signos gráficos exigem menos competências cognitivas e de memória, estão sempre disponíveis, requerem competências motoras mínimas, são facilmente compreendidos pelos interlocutores e fáceis de facilitar o seu uso (Howlin, 2006). O uso de CAA em crianças com PEA está muitas vezes relacionado com programas de comunicação funcional. Este tipo de abordagem implica a análise funcional de comportamentos desviantes, assumindo que estes são muitas vezes a única forma da criança com competências comunicativas muito limitadas conseguir de forma eficaz e rápida adquirir controlo no seu ambiente (Howlin, 2006). Nestas ocasiões pode recorrer-se à CAA, permitindo à criança a oportunidade de resolver o problema e ser efetivo na comunicação. Tem-se revelado também essencial o uso de estratégias aumentativas para a compreensão por parte do individuo com PEA uma que se tornou uma evidência, que indivíduos com autismo beneficiam do uso de estratégias aumentativas nos inputs linguísticos particularmente através da modalidade visual (Quill, 1997). Independentemente do sistema de comunicação escolhido, para que a intervenção tenha realmente valor, é crucial que os signos estejam acessíveis, tanto para a criança como para aqueles que vivem e trabalham com ela. Nenhum sistema terá sucesso a não ser que seja reforçado numa grande variedade de settings (Howlin, 2006). Na criança com PEA, assim como na generalidade das crianças com perturbação da comunicação, a CAA deve ser entendida como um sistema que deve promover o ensino de competências comunicativas para que o indivíduo possa melhorar a sua vida quotidiana e levá-lo a sentir-se mais autónomo e apto a dominar os problemas da vida diária (Von Tetzchner et al, 2000; Millar, 2006). Desta forma salienta-se mais uma vez a necessidade dos profissionais partilharem estratégias interventivas com os pais, promovendo uma intervenção centrada na iniciativa e motivação da criança e nas necessidades da sua família (Mirenda, 2001). Para a implementação de um SAAC é necessário realizar uma avaliação compreensiva para determinar o nível de funcionamento da criança e a utilidade da CAA. Esta avaliação deve permitir conhecer o interesse da criança por objetos, atividades e conhecimentos, qual a sua atenção e iniciativa comunicativa, quais as suas competências de auto-ajuda, o seu nível de independência, as suas competências motoras, de visão e de audição. Por último devem salientar-se as necessidades de a família ter ajuda, apoio e descanso (Millar, 2006; Mirenda, 2001).
MITOS DA CAA
A CAA inibe o desenvolvimento da fala
Geralmente este receio surge por considerarem que a criança pode preferir usar o Sistema Aumentativo de Comunicação (SAAC) em detrimento da fala. No entanto, a maioria dos estudos realizados nesta área provam que o uso de CAA pode, pelo contrário, estimular o aparecimento da fala, tanto por reduzir a pressão do indivíduo com alterações de fala, como por desvalorizar as limitações cognitivas e motoras associadas à fala e centrar-se nas questões comunicativas. Eventualmente a fala poderá aparecer e passar a ser o meio de comunicação preferencial das crianças por ser mais fácil, eficiente e socialmente aceitável (Millar, 2006). A intervenção ao nível da CAA não deve ser apenas utilizada no caso da ausência da fala ou como último recurso, uma vez que este tipo de intervenção pode desempenhar muitas funções complementares no desenvolvimento da comunicação. Isto porque as competências comunicativas antecedem as competências linguísticas e desenvolvem-se em paralelo, pelo que o recurso a CAA pode evitar o insucesso na comunicação e desenvolvimento da linguagem (Sapage et al., 2018). Este receio por parte de muitos pais e alguns profissionais possuem, não é apoiado pelos dados empíricos disponíveis e que, na verdade, a literatura atual e a prática clínica sugerem precisamente o oposto.
Os autores apoiam-se num número razoável de estudos empíricos que relatam melhorias nas capacidades da fala após intervenção com CAA (Cress & Marvin, 2003). Outros autores corroboram esta ideia ao constatar que as crianças tendem a usar os meio disponíveis para comunicar mais rápidos, eficazes e acessíveis, transmitindo os seus desejos e necessidades. Mesmo crianças com reportórios limitados tendem a usar os sons para fins específicos, tais como a obtenção de atenção (Cress & Marvin, 2003). Outro fator que contribui para o desenvolvimento da fala é o facto da CAA incluir todos os métodos de comunicação e, como tal, a intervenção também abordar a melhoria funcional das competências vocais/verbais, uma vez que estratégias de CAA geralmente incluem fornecer um modelo verbal para a mensagem (Cress & Marvin, 2003).
A criança necessita de um conjunto de competências para poder beneficiar do uso da CAA
Embora se possa argumentar que algumas competências cognitivas básicas são essenciais para desenvolver a linguagem, a relação exata entre linguagem e cognição não foi claramente especificada. Alguns autores chegam a desafiar a noção de que o desenvolvimento cognitivo precede necessariamente o desenvolvimento da linguagem, mesmo em comunicadores típicos, uma vez que a experiência comunicativa também pode ser um veículo para a expansão de capacidades cognitivas. Por outro lado, dado o impacto que a linguagem exerce sobre o desenvolvimento cognitivo, a falta de capacidade de linguagem expressiva pode colocar uma criança numa clara desvantagem desenvolvimental (Cress & Marvin, 2003). Assim, desenvolver competências linguísticas através da CAA pode ser de crucial importância para o desenvolvimento cognitivo da criança (Sapage et al., 2018).
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Abril de 2026// por Terapeuta Helena Santos (C-030977185)
